sábado, 20 de agosto de 2011

Epifania ou sobre os percalços do que é amar com desprendimento.

Torna-se até repetitivo, chato sentar para escrever e ler sobre amor. O problema é que para mim escrever é terapia e não importa se o blog é pra ser lido ou visto, ou se precisa ser esteticamente lindo e vendável. É minha terapia e não preciso me preocupar com a casca sobre o que é de minha restrita importância.
Daí que mexe e remexe eu volto para falar de amor. Não porque mudou, mas porque sempre presente. Crescendo e duvido se amadurecendo, aprendi que ele se manifestará de várias formas com várias pessoas diferentes ou iguais entre si, nunca mantendo os totais opostos juntos mas porque o amor une as pessoas sobretudo pelas semelhanças, senão mesmos valores. Aí quando os valores mudam conforme necessidades ou círculos, as pessoas tendem a se afastar - quando as discordâncias representam que detalhes superam a tolerância.
Tenho com meu núcleo familiar uma relação de interdependência que beira o conceito de patologia, tamanha é a "pregação", entende? De sugestões, de palavras desferidas depois do silêncio que magoam ou que ajudam, da necessidade da união dos quatro independente de qualquer coisa ao incômodo do meu silêncio sobre eles. Sempre curti essa onda de responsabilização, buscar irmão na escola, comprar pão, fazer a janta todo dia, arrumar as camas, saber se todo mundo já tá tomado banho pra ir pra cama, sempre curti sofrer por antecipação, também, mas isso nem vem ao caso nesse exato momento. Meus pais sempre reclamaram que eu nunca persisti em algo até o final desde criança, aquelas atividades físicas, sabe? Mas nunca disseram a eles que as minhas escolhas eu faria desde adulta. Daí que aprendi invariavelmente a nunca mudar a rotina, porque a rotinização me apraz - porque posso controlar. E porque gosto de construir a minha rotina. Fechar as portas antes de dormir é quase uma coreografia, tamanho é o costume e a ordenação de portões, cadeados e chaves. Depois sempre sento no meu cantinho do sofá ou venho pro meu quarto. Temos sérias discordâncias pelo choque de gerações, mas ao adolescente mais arisco eu aconselho a dançar na vibe que depois muda as coisas conforme o adequado. Nunca faça tudo o que quer simplesmente porque quer e porque "tem mais de 18 anos pode fazer o que quiser da sua vida". Não importa qual a sua idade - você nunca será maduro(a) o suficiente para as besteiras da vida, principalmente quando da impulsividade ou prazeres da carne. Daí que para mim a família é um campo sacramentado. Ninguém toca, ninguém fala. E se eu não gosto de alguma coisa não gosto e pronto, mas não falo e nem permito ninguém falar. O mesmo digo para eles.
Preciso daqueles que são de mim porque não sei se posso viver sem eles, então nos dependemos para não nos perdermos nesse caminho da vida. Não sei se por medo da morte em si, por medo da solidão, por medo da dor.
Toda dor de amor é sublime, dizem. Para mim qualquer sofrimento ensina, mas endurece a gente. Deixa a pessoa mais séria, mais reclusa, mais escusa com novas relações, deixa a pessoa mais só, mais difícil de ser cativada. Love is a battlefield, diz uma música que adoro. Viver amando é bem isso mesmo. Viver é aprender a não ser atingido de morte. Pelos outros, pelas palavras, pelo amor em si, pela aspereza, pelo trabalho, pelos carros, pelos mísseis.
E de repente você aceita os defeitos, limitações e "pré-conceituações" das pessoas que ama. De repente eles/elas esquecem que existem outros seres humanos diferentes, com limitações, também, mas assumem como intoleráveis. E você percebe que elas mudaram.
Com sua idade vem o trabalho, os filhos para alguns, as importâncias, novas amizades, e o tempo se resume ao horário da noite entre o chegar em casa e criar coragem para tomar o banho e ir dormir para começar um novo dia, uma nova semana. Começar o papo com Deus e ficar perguntando a Ele sobre os seus amigos, como eles estão, que Ele os ilumine, que cuide, que guie. Aí o coração aquece e nas noites de insônia dormir é a grande vitória, esperando pelo velho desejo de dividir a dormida e os sonhos com um outro alguém que não seus dois travesseiros e seus três lençóis.
De vez em quando ver alguém querido lava a alma, renova o espírito. "A solidão é fera, a solidão devora, é amiga das horas, prima-irmã do tempo, que faz nossos relógios caminharem lentos, causando um descompasso no meu coração (Alceu Valença)". A contemplação da individualidade ajuda, mas desgasta a casca.
Tem dias que não curto trocar palavras - já disse isso por aqui antes. Mas é parte de mim. Que culpa o resto do mundo tem de querer contato comigo? Aí atendo; com um peso nas costas, mas quem está do outro lado da linha é mais importante que meus maus-humores que às vezes duram mais que os dias que eu desejaria que durassem.


Tem gente que é tesouro na sua vida. Tem gente também que transforma o tesouro que você guarda em lixo com simples palavras. Porque as pessoas mudam e aceitar isso é o verdadeiro desafio - justamente aquela onda de desviar dos mísseis. Ser atingido de frente pela vida dói, sufoca; você se afoga em si mesmo. Porque ser amado é fácil, sobretudo raro; cuidar e amar com os "apesar de.." é que dificultam. Porque desviar dos mísseis demanda desprendimento e intenção de atacar o alvo quando se sente ameaçado. Atacar para amansar. Porque amar requer estudo de campo, estudo do outro e das estratégias de guerra.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Do no harm. Não faça mal.


Qual que é geralmente a sua maior mentira? A minha é suprimir a tristeza que é inerente a minha pessoa só para ver meus congêneres felizes. Porque muito de mim mesma pode ser relevado por de fato não influenciar diretamente na vida de ninguém ou do que eu faço para viver. Sabe aquelas épocas em que verbalizar vai se tornando pesado de novo? Então. Do no harm to yourself nor the others.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Só algumas opiniões.

A sensualidade está nos olhos de quem vê. Gostos pressupõem predisposição ao risco, ao desprendimento e ao conhecimento do novo. Sabedoria existe na concepção de quem ouve/lê/vê. Sofrimento só dói se for sentido por uma só pessoa. Problemas sem soluções só existem enquanto se gasta muito tempo procurando-as. Incômodo persiste quando você deu asas para ele previamente. Solidão de espírito só machuca se não for degrau para o autoconhecimento. Fome genuína só existe quando a ausência total é a palavra de lei. Segurança não se garante apenas quando se tem o controle das chaves de todas as portas. As pessoas são inimaginavelmente diferentes umas das outras e é preciso que se aceite isso. Amar é liberdade conscienciosa das virtudes e sobretudo, dos defeitos do outro.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Do continuum que são os dois, Ou ela precisava ser ouvida Parte II

Do caminho do café que freqüentávamos perto de nossos empregos resolvi pegar um rumo que me desse resposta para tantas perguntas na minha cabeça. O silêncio tem o peso do mundo quando nele jazem todas as palavras que você não tem forças para exprimir – porque ferozes.
Poucas vezes na vida experimentei a sensação fantástica de não precisar dizer qualquer coisa a 20cm de distância de uma pessoa; ele me olhava e entendia – assim, sem julgar, sem criticar, nem cobrar, sem beijar para que eu parasse de falar/pensar. Simples assim, confortável.
[No one knows except the both of us. This won’t work now the way it once did. I spent so much time in survival mode]
[Who doesn’t long for someone to hold?]
O conforto sufoca quando se aprende a viver nas adversidades. Ele é o meu conjunto: carne e encanto. Em um momento de nossa rotina eu tive um devaneio que me trouxe num lampejo de obviedade a certeza de que aquilo tudo era absoluto, era certo, era concreto, era seguro. Assustei-me. Ou não é direito de todo ser humano ser refém de seus sentimentos? Ou não é prerrogativa da mulher desconfiar de qualquer apresentação de certeza que se apresente em frente a ela?
[Anyone who can touch you can hurt you or heal you. Anyone who can reach you can Love you or Leave you]
Da abstinência de carinho em que eu vivia antes de conhecê-lo, até ser englobada por braços firmes, passei pelo doloroso processo do desprendimento de todos os meus costumes, manias e velhices da solteirice que parece infinita. Abri mão do meu sagrado silêncio no balcão do bar tomando minha dose semanal refletindo sobre novos personagens, contrariedades familiares e nos corredores de meu edifício interior: meus segredos, minhas alegrias, meus defeitos tudo ali, guardado, para ninguém conhecer. Precisei me desfazer do meu mundo só meu e deixar que ele construísse o seu próprio, dentro de mim.
Precisei me ver mulher-amiga-irmã, cuidadora e cuidada, dona do meu lar. Precisei aceitar dividir a cama e não abrir mão, precisei lançar mão da coragem de novos pratos, novas roupas íntimas. Precisei aprender o traquejo da convivência. E me descobri ótima no exercício da rotina. Esse bem que tanto procurei durante vidas, histórias, crônicas, contos, procurei comigo mesma, com o trabalho, mas aprendi com ele, aprendi a amá-lo e a querê-la: a rotina.
Dizem que o início de relacionamento é sempre flores, “depois piora, amiga”. No nosso caso a rotina e o silêncio foram a garantia de que era exatamente o que procurávamos na vida e um no outro – não esperar mais sobre as imprevisibilidades do(a) companheiro(a). Era assim, eu o lia, ele me lia, não havia subterfúgios, passado obscuro. Foi esse o problema?
Entre o manjericão que coloquei sobre o molho da massa no jantar de ontem e a taça de vinho costumeira porque precisava concluir aquele ensaio, decidi que o tenho amado tanto que me perdi nesse continuum que temos sido os dois. Não lembrava mais a última vez em que fiz algo pensando apenas em mim, tive medo de não me amar mais do que o amava, medo de ele de repente decidir partir, sem mais, porque é assim que ele é: fugitivo das relações humanas, da necessidade de explicação. Encantei-me porque ele era exatamente assim, sem brincadeirinhas ou extensão do que precisava ser dito ou percebido.
[It’s not hard to fall when you float like a cannonball]
Desde o primeiro minuto em que nos vimos eu percebi o interesse dele. Como sempre, o silêncio se traduz pelos olhos e os dele me percorriam. E enquanto conversava com outras pessoas naquele bar, e eu estava concentrada na minha margarita pensando no fim da terapia, ele fazia questão de puxar assunto comigo a cada três minutos, só para que eu erguesse o olhar e me encontrasse com o dele.
Talvez se na juventude nossos caminhos nunca tivessem se cruzado. A maturidade nos trouxe a certeza de que não era apenas a beleza que procurávamos em um relacionamento. Eram os detalhes. O gosto dele, o cheiro dele no meu travesseiro, a teimosia em usar o meu shampoo, de tirar o pimentão do meu prato – que eu odeio e ele adora, de tomar do meu copo de suco depois de dizer ao garçom que não queria suco, de apertar o meu nariz à noite antes de dormir.
As constantes reclamações para com o meu vinho de todo dia, aqueles jogos de futebol infindáveis, o café super-doce que ele adora, começavam a incomodar.
O silêncio eu digeria, mas a proximidade exacerbada me preocupou – foi isso. De repente me vi assustada com essa segurança, com a possibilidade do silêncio ad aeternum. Porque eu sei o que ele dizia com o olhar, mas o que eu guardava era negativo e eu sei que incomodaria.
Mas eu quero voltar, quero envolver todo aquele meu homem, meu marido. Quero fazer o jantar e dizer o que estava incomodando para que não me irrite mais – sabendo que nesse momento é melhor conversar que partir. Não era partir que eu precisava, era me enfiar mais nessa relação de interdependência incurável. Quantas outras mulheres não enfrentaram esse momento do medo de perder o que parece perfeito simplesmente por receio de que o outro resolva que “já deu o que tinha que dar” e simplesmente se desespera com a possibilidade da solidão depois de ter desconstruído todo o seu forte de guerra? Poucas, eu respondo para mim mesma. Viemos todas com o defeito de fábrica da carência da compleição – e é deveras doloroso nos ver dependente emocionalmente, entregues.
[Stay with me. My Love, I hope you’ll always be right here by my side if ever I need you. In your arms I feel so safe and so secure. Everyday is such a perfect day to spend along with you I will follow you will you follow me all the days and nights?]

terça-feira, 28 de junho de 2011

Sobre a capacidade de se pensar como o outro, Ou um conto masculino meio torto PARTE I

Tudo poderia ter acontecido hoje, menos acabar a gasolina do carro bem na hora da chuva, bem no meio da ponte, na volta para casa. Enquanto dirigia só conseguia pensar se ainda tinha aquele uísque que eu gostava dentro da cristaleira, porque quando chegasse em casa, seria o espetáculo da noite: deixar o vinil rodando, tomando da bebida sem gelo, para não apetecer o espírito – e lamentar. Foram necessários 30 reais entre encontrar um posto próximo aberto, comprar o mínimo para chegar em casa 3 horas depois do rotineiro.
Entrei em casa resolvendo se ligava para minha irmã, ou se retomava os planos da embriaguez pálida, por um motivo que poderia ser nada mais que vulgar, estúpido: ela. Não sei quem decidiu primeiro, ou se houve qualquer decisão consensual, mas parece agora que não estava mais dando certo, de uma forma que eu mesmo não compreendo.
Mulher tem sempre a impressão que pequenos gestos insignificantes escondem intenções, mensagens inconscientes, desprezo – tudo negativamente, como depois do amor e dos carinhos e o sono bate, viro de costas para ficar mais confortável; até que entendesse que ela pensava que eu demonstrava alguma coisa ao dar as costas para ela, tive que enfrentar o olhar de desprezo choroso quando acordava por uams 4 ou 5 vezes, então tive que explicar que “estou apenas mudando de lado; não significa que não gosto de você, nem que num plano futuro você ficará sozinha; apenas me viro para me sentir confortável. Você pode se virar, se desejar”. E me forçava a dormir de conchinha pelo simples fato de declarar quase sussurrando que na verdade me desejava.
Nunca entendi porque absolutamente tudo tinha que ter uma explicação com preâmbulo, desenvolvimento, réplica, tréplica e considerações finais (sempre com ela irritada, aos prantos).
Aprendi que algumas das nossas melhores noites começaram com ela me oferecendo uma taça de Cabernet Sauvignon usando um simples vestido de um tecido cujo nome desconheço, que simplesmente pousava sobre sua pele lisa e cheirosa – que eu absorvia loucamente como o poder do absinto só depois que sentávamos e ela esperava que eu contasse sobre o meu dia.
Então quando ela começava a contar sobre o dia dela, eu começava a experimentá-la – o meu antepasto com o vinho. Enquanto ela falava do que tinha feito adicionando os comentários ácidos, típicos dela, mesmo, soltava os femininos e charmosos sobre cheiros, cores e do que agora queria para a casa, eu sheirava seu braço, comentava o cheiro com novo (e eu percebia suas diferenças de cheiros), sempre tão bom; não tão intoxicante quanto o seu próprio cheiro, quando despida de tudo – e do mundo. De seu suor só pude provar poucas vezes, pois não se deixava aproximar a menos que não fosse para ser consumida, ou agraciada com souvenirs do que seria um bom momento depois.
E normalmente era jasmim, almíscar, macadâmia, e enquanto a aspirava e ela fazia sua preleção ou próprio não me sentia mais, deixando a taça de vinho no chão e cheirando, sorvendo, acarinhando, gravando para sempre a mulher que era nada mais que minha; pernas, pés, ancas, seios, pescoço, boca, um conjunto que só tinha tamanho e sagrado significado porque era meu. E ela mesma só tinha me agarrado de vez muito tempo depois que me olhou naquele bar e corrigiu-me um comentário infeliz literário que eu havia feito, há um bom tempo atrás.
Na ocasião sorriu com um canto de boca e simplesmente pagou sua margarita e saiu, com aquele vestido que eu tanto ainda amassaria. Só consegui trazê-la para a minha vida depois de provar que seria um com companheiro para a vida: bom apreciador de casa, de música, de cabeça e mau entendedor da alma feminina. Noutro dia, enquanto tentava explicar porque adorava Ne Me Quitte Pas eu estava absorto nas suas canelas grossas, entre um café e outro, na cafeteria que freqüentávamos próxima a nossos trabalhos, sem nunca termos nos cruzado antes. Eu, advogado, ela escritora. Seria, no mínimo, uma excitante luta de gênios, com diálogos pesados e provavelmente discussões épicas desnorteadoras – que magoariam.
Mas ela se saiu bem, demonstrando um espírito bem forte para alguns aspectos e eu só me apaixonei mesmo da primeira vez em que a trouxe em casa e ofereci o Cabernet que coincidente era o seu preferido.
O tempo com que começamos a sair para casarmos foi de 9 meses e disso independe uma gravidez. Antes eu queria testar minha lenta habilidade de conquistar mulher e ter prazer com minha superioridade viril. Ledo engano. Ela me fez pensar que eu que estava guiando a situação. Primeiro porque eu sou misantropo e ela me abriu os olhos para esse fato. Antes mesmo que terminasse de tirar a mesa daquele prato insípido que eu havia tentado incrementar, já havia começado a reparar suas saliências sob a roupa e ela, que sabia a que guiaria aquele encontro,continuava conversando informalmente e eu agi da forma como tanto tempo depois continuaria sendo o nosso cotidiano – a melhor parte dos meus dias que nem era o orgasmo, era o antes – o cheirar seus braços, seu colo, sua nuca, sentir seus sempre-bons feromônios, sentir os pelos eriçarem com o toque da minha barba malfeita, o subir-descer do seu tórax enquanto suspirava e colocava as pernas por sobre as minhas, enquanto sentados no sofá e conversando despreocupadamente.
A mim nunca foi, de fato, significante, usar uma calcinha vagabunda diferente a cada grande transa. A mim o melhor era beijar o seu pescoço, enquanto sentia o seu corpo perigosamente aderido a mim.
Na verdade ela nunca foi pedante, com ares de superioridade por seu domínio lingüístico – confesso preferir sempre ouvi-la sussurrando no meu ouvido melodiosamente o Ich Liebe Dich enquanto passeava seus dedos sobre minha coluna vertebral. Na verdade eu me enganei ao pensar que as discussões seriam espinhosas.
Ela ERA MINHA, com toda acepção da palavrae eu era dela, com toda a excitação que a possessividade pode trazer. Não era sexo todo dia, mas era a melhor rotina que eu poderia esperar, porque eu dormia sabendo que acordaria com a mesma pessoa que me fizera adormecer, e que me irritava com aquela mania de dormir com três lençóis, o que representava um espaço de não-contato entre nós no começo da noite.Me beijava todo o corpo depois do banho e eu ficava em transe com o aroma que ela mesma deixava em mim dos cabelos estranhamente macios que eu acarinhava até adormecermos.
E tinha aquela insônia irritante que a fazia levantar no meio da noite e sentar na poltrona lendo um livro até cair no sono de novo. E eu ia buscar para a cama aquele conjunto que era o meu perfeito – a minha mulher, da qual eu era.
De manhã, ao acordar me encaminhava automaticamente à cozinha – o cheiro do seu café especificamente me abduzia. Ela tem esse poder de me abduzir e transformar todo o mundo circundante em bruma. Não compreendo. O seu cheiro me consumia perto até do café forte.
Como antes menionei – a melhor rotina que eu poderia esperar. Essa minha necessidade de me fechar no quarto limpo, milimetricamente organizado, climatizado e com aquela presença se tornaram tudo o que o meu mundo conteria. O MEU TUDO.
Mas o pouco dela que me seria suficiente saber estava contido naquele silêncio que pesava muito mais que a minha possessividade e ocupava um espaço maior que aquele meu mundo pudesse comportar- maior que eu.
Não sei quando exatamente ela começou a se sentir sozinha, apesar minha clara presença ao seu lado tentando sempre englobar toda a sua pele, seu perímetro corpóreo, seu cheiro, sua beleza de simplicidade.
Não sei se durante os filmes, ou as refeições, ou sei foi quando o NOSSO silêncio parecia ser o simples significado de rotina e aparente conhecimento e predileção pelo outro ali presente – sem verbalizações. O sentir transcende o verbalizar. Pensava estar sendo sentido.
Mas não sei se para ela tudo isso tinha esse significado de rotina, mas o tinha para mim. Imagino que tenha sentido falta dos planos juvenis de rodar o mundo com a mochila nas costas – duvido que a falta de conhecer novas pessoas, se na sua própria cabeça toda a população mundial já habitava. Ela era todas, o mundo, era um universo - não, continua sendo um astro que exerce inimaginável força gravitacional sobre mim.
Tanto eu poderia ter feito antes se um tão pouco ela tivesse manifestado! Nunca critiquei seu gosto pelo vinho enquanto trabalhava em casa. “É um dos paraísos artificiais”, ela dizia, lembrando Baudelaire.
Penso que minha mania de correção,perfeição e um mundo utopicamente cinza a meu modo deve tê-la sufocado, mea culpa. Ao mesmo tempo, acho que era tudo verdade quando eu dizia que gostava mais dela do que ela de mim, muito embora ela mesma tenha me ensinado que só porque alguém não te ama do jeito como você quer/demanda ou espera em igual medida, não quer dizer que não te ame com todas as forças de que ela dispõe.

E eu sentia a força dela – mas confesso que nem sempre do amor dela. Não sei se porque eu era tão absorto na satisfação do meu mundo que a achei satisfeita e isenta de necessidade de esforços de manutenção.